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Um relato sobre o CONISLI 2005

Introdução

Nos dias 3, 4 e 5 de novembro deste ano (2005) aconteceu em São Paulo, no SESC Itaquera, o CONISLI - Congresso Internacional de Software Livre. Tive a felicidade de participar desse evento e, por sua importância, faço aqui um relato sobre o que vi por lá. Por motivos profissionais, só pude ir ao CONISLI no dia 3 e na parte da tarde do dia 5.

O CONISLI 2005 estava programado inicialmente para acontecer no shopping Frei Caneca, em São Paulo. Porém, por problemas enfrentados pela organização do evento, foi necessário uma mudança e o SESC Itaquera acolheu o CONISLI gratuitamente. O lugar fica localizado na zona leste da capital paulista, próximo ao Metrô Itaquera, numa área verde. Trata-se de um local muito bonito e grande. Assim como eu, muitos tiveram que andar bastante para ir da entrada do SESC até a área onde o evento era realizado. Tanto é que um dos palestrantes (não me lembro qual) chegou a brincar com isso, dizendo que o CONISLI é o único evento com passeio ecológico. O único entrave é que o SESC Itaquera fica longe do centro de São Paulo e isso serviu de barreira para alguns, mas sinceramente gostei do evento ter ocorrido lá.

Antes de começar

Antes de começar, peço desculpas pela falta de qualidade de algumas fotos e por possíveis interpretações erradas da minha parte. Além disso, se algum dos palestrantes que aparecem neste site quiser que suas imagens não sejam exibidas, por favor, contate-me o mais rapidamente possível. O texto desta página reflete opiniões minhas, o que não significa que estou tentando induzir os leitores. Logo, o fato de você ser contrário a alguma das afirmações feitas não atribui à minha pessoa o merecimento de ofensas ou de críticas infundadas.

Dia 3

Em torno das 10 horas do dia 3, a abertura do CONISLI foi iniciada. Lá estavam Ralf Braga, presidente do CONISLI, Gustavo Mazzariol, gerente de TI do Metrô de São Paulo, o deputado estadual Simão Pedro (SP), Corinto Meffe, do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, e o diretor do SESC Itaquera, cujo nome não me lembro, me desculpem. Também não me recordo se havia mais alguém no palco durante a abertura, mas todos ali falaram da importância do CONISLI, das dificuldades encontradas para a realização do evento, entre outras coisas.

Foto da abertura

Finda a cerimônia de abertura, subiu ao palco ninguém menos que Ken Coar da Apache Foundation, que, aliás, fez um relato do CONISLI em seu blog. Em sua palestra, Coar não falou dos projetos da Apache, como imaginei inicialmente, mas sobre como fazer uso da comunicação eletrônica - especialmente do e-mail - para resolver nossos problemas e ajudar outras pessoas. Inclusive, ele falou sobre ter paciência para evitar atritos numa lista de discussão e uma de suas dicas foi a de não clicar em Send (Enviar) durante uma hora, caso esteja nervoso. De cabeça quente, as pessoas freqüentemente fazem o que não é correto. Ken Coar também destacou a importância do e-mail porque numa lista de discussão, por exemplo, pessoas de todo o mundo participam. Logo, é preferível usar essa forma de comunicação, já que mesmo estando em fuso horário diferente, uma pessoa poderá ler uma mensagem no momento que lhe for apropriado, o que teria restrições caso houvesse um mecanismo de comunicação instantânea. Gostei bastante da pessoa do Ken Coar. Além de ser simpático (exceto para com um mosquito que o incomodou durante a palestra, =D), demonstrou ser bastante generoso, pois ele mesmo arcou com as despesas de sua vinda ao Brasil ao saber que o CONISLI não teria condições para tal.

Ken Coar

Em seguida, subiu ao palco outro nome de peso: Randal Schwartz, especialista na linguagem Perl. Schwartz falou sobre as licenças existentes e me impressionou ao falar sobre como qualquer pessoa pode contribuir com iniciativas de software livre. Segundo ele, uma pessoa não precisa ser desenvolvedora para fazer uma contribuição importante. Através de exemplos, Randal deixou claro que o simples pedido de uma funcionalidade já constitui uma contribuição importante, uma vez que os usuários podem ter idéias que os desenvolvedores não têm. Schwartz também falou de sua experiência em dar suporte ao Perl e como ganhou dinheiro com isso. Um dos exemplos mencionados foram os artigos que ele escreveu para revistas. Também gostei muito da palestra de Randal Schwartz. Ele se preocupou em mostrar através de sua própria experiência como certos aspectos são importantes no software livre. Além disso, assim como fez Ken Coar, Randal também veio ao Brasil por conta própria.

Randal Schwartz

Depois da palestra de Randal, aproveitei o intervalo para conversar com algumas pessoas e me alimentar. Porém, confundi os horários e cheguei atrasado na palestra seguinte: HogWash, um IPS invisível (IPS - Intrusion Prevention System), ministrada por João Eriberto. Embora tenha perdido o início e tenha decidido assistir a apresentação por mera curiosidade, confesso que fiquei impressionado com a capacidade do HogWash. Com essa ferramenta, é possível proteger uma rede de ataques trabalhando diretamente na camada 2 do modelo OSI (Open Systems Interconnection). Eriberto disponibilizou os slides de sua apresentação aqui. Também gostei muito dessa palestra. Eriberto soube explicar muito bem um assunto complexo. Até se movimentou bastante e usou muitos gestos para deixar sua explanação mais clara.

Em seguida, foi a vez de assistir a palestra de Felipe Augusto, que falou sobre LDAP (Lightweight Directory Access Protocol), um protocolo de acesso a serviços de diretórios, criado para o acesso a informações por meio de TCP/IP. Com LDAP é possível, por exemplo, obter dados de uma pessoa através da pesquisa de seu nome. Felipe falou ainda do phpLDAPAdmin, um interface via browser que facilita o trabalho com LDAP. É um assunto muito interessante, vale a pena pesquisar a respeito. Felipe Augusto demonstrou ter grande domínio do tema e só não pôde explicar mais por limitações de tempo (o que aconteceu em outras palestras também).

Muita coisa para um dia só, né? Mas não acabou. Ainda assisti a palestra de Cassio Brodbeck, que falou sobre "Redundância de Firewall com Linux e *BSD". Assunto também muito interessante, atraiu muitos administradores de rede, mas confesso que achei a apresentação um pouco cansativa e cheguei até a desviar minha atenção em alguns momentos. No final, Cassio convidou os presentes a visitarem e contribuírem com o projeto Rede Livre.

Update: após a publicação deste relato, Cassio entrou em contato comigo para indicar os links para sua apresentação e para um artigo relacionado. Ainda não parei para ler com calma este último, mas na primeira olhada me pareceu muito bom. Vale a pena baixar:

Link da apresentação; link do artigo.

Por fim, veio o encerramento: um painel de debate com o tema "Software Livre no poder público - presente, passado e futuro”. Estavam à mesa Corinto Meffe (Ministério do Planejamento), o deputado estadual (SP) Simão Pedro, Gustavo Mazzariol (Metrô-SP), Sérgio Amadeu (ex-presidente do ITI), o atual presidente do ITI (não sei o nome dele, me desculpem) e Marcos Mazzoni (CELEPAR). Foi a melhor parte do dia, pena que muita gente já tinha ido embora, porque os depoimentos foram incríveis e, infelizmente, minha falta de habilidade como jornalista me impediu de anotar todos os tópicos. Mas a seguir segue uma pequena amostra de algumas abordagens:

Mazzoni: Marcos Mazzoni falou de seu trabalho no Rio Grande do Sul como presidente da PROCERGS (Companhia de Processamento de Dados do Rio Grande do Sul) e no Paraná (atualmente) como presidente da CELEPAR (Companhia de Informática do Paraná). Em seu discurso, houve a abordagem do quanto os estados em questão economizaram com o software livre e as dificuldades por ele encontradas, como o "ataque" da Microsoft no sentido de barrar o avanço das iniciativas de software livre no Paraná e no Rio Grande do Sul. Como exemplo, Mazzoni disse que a empresa de Bill Gates chegou a oferecê-lo quatro anos de licenças gratuitas do Windows para impedir a instalação do Linux nos computadores do estado (não lembro qual);

Sérgio Amadeu: ao discursar, ficou visível o porquê de seu trabalho ter recebido tanto destaque quando era presidente do ITI. Amadeu falou da importância do software livre como meio de inclusão digital (e social), das barreiras que encontrou e das "pedras no sapato" que encarou (e encara). Uma delas é o atual ministro das Comunicações, Hélio Costa, que parece determinado a prejudicar todo o trabalho já feito com software livre, mesmo com seus benefícios estando claros e visíveis. Sérgio Amadeu fez duras críticas à adoção de projetos que incluem parceria com a Microsoft. Segundo ele, os recursos financeiros aplicados em licenças do Windows e de seus aplicativos poderiam ser empregados no treinamento de instrutores que fariam um trabalho mais prolongado e estenderiam o acesso à informática a um número maior de pessoas. "Não tem sentido fazer Inclusão Digital com software proprietário", disse. Sérgio Amadeu mostrou outras idéias muito interessantes também. Uma delas: os professores universitários poderiam incentivar seus alunos a contribuírem com os vários projetos de software livre existentes, ao invés de pedir trabalhos acadêmicos irrelevantes. Concordo plenamente com isso. Ao invés dos professores pedirem para os alunos projetarem calculadoras, sistemas de locadora, entre outros, por que não os incentivam a trabalhar com iniciativas de real utilidade? Além de colaborar com a sociedade, os alunos passariam por experiências muito mais enriquecedoras;

Gustavo Mazzariol: Gustavo falou rapidamente sobre como o software livre "entrou" no Metrô de São Paulo e citou algumas dificuldades, mesmo porque começou seu trabalho nesse sentido numa época em que o software livre era pouco conhecido. Mazzariol também disse que o Brasil está muito avançado nessa área e que pôde confirmar isso em um evento internacional sobre o assunto promovido pela Intel. Uma coisa que ficou evidente em Gustavo (e também nos demais participantes) é a disposição para brigar, isto é, para defender a adoção do software livre diante de um ambiente de dúvidas, incertezas e resistência.

Os demais participantes também falaram e, no geral, o painel serviu para mostrar o quão vantajoso é a adoção de software livre nos meios governamentais. Não me lembro qual, mas um dos palestrantes usou com argumento que o dinheiro público precisa ser bem gasto e que comprar licenças (caras) de softwares proprietários é um grande desperdício, pois a aquisição precisa ser feita periodicamente e o software nunca será da instituição em questão, já que as licenças só permitem seu uso, como se fosse um aluguel.

Também ficou claro que há muito o que ser feito e que o apoio da sociedade é de extrema importância. Há uma série de dificuldades a serem vencidas, como falta de informação (por exemplo, muitos pensam que a adoção do software livre nas instituições do governo é uma decisão arbitrária quando, na verdade, há pouco espaço para se mostrar os benefícios), lobbies (a grosso modo, uma espécie de complô), inverdades, interesses políticos, entre outros.

Sérgio Amadeu e euNo final, fui cumprimentar Sérgio Amadeu (foto ao lado) e depois Gustavo Mazzariol. Amadeu estava rodeado de pessoas e foi muito gentil com todos. Com Gustavo, pude trocar algumas palavras. "Como fã do Metrô desde pequeno, fiquei muito contente ao saber dos trabalhos envolvendo software livre na companhia e desde então admiro muito suas iniciativas", disse a ele. E garanto que não foi papo furado. De fato, gosto muito do Metrô e já participei de uma visita técnica por lá e participarei de outra no dia 26/11/2005. Durante nossa rápida conversa, cometi uma gafe: Gustavo me perguntou se eu conhecia o rapaz que estava ao seu lado. Disse que não e ele respondeu que seu nome era Luiz Blanes. "Esse nome não me é estranho"... Em seguida, Mazzariol afirmou que se tratava do desenvolvedor do gerenciador de janelas Blanes. Poxa vida, eu tinha que “ter um branco” justo na frente do Blanes? Bom, acontece, hehehe... Abaixo a foto que tirei com eles (Gustavo à esquerda, eu no meio e Blanes à direita), pena que não saiu com qualidade.

Mazzariol eu e Blanes

No dia seguinte

Então, no dia seguinte tive que trabalhar, não pude ir...

Dia 5

Stands

Grande esse texto, não? Se ainda está aqui, meus parabéns! No dia 5, cheguei às 13h, pois trabalhei até o meio-dia. Me alimentei e fui à palestra de Paulo Henrique de Lima, presidente da ENEC (Executiva Nacional dos Estudantes de Computação). Entre as atividades dessa entidade, está a discussão de assuntos como “regulamentação da profissão” e “reforma universitária”. A ENEC também participa de vários eventos, inclusive de “semanas de informática” em universidades, para divulgar o software livre. Algo que mereceu destaque foi o pedido de Paulo para que possibilitados patrocinem a impressão de uma cartilha sobre software livre que a ENEC distribui nos eventos. Mais informações sobre os trabalhos da ENEC em www.enec.org.br.

Paulo, do ENEC

A palestra seguinte foi a do português Manuel Lemos, que falou sobre o site PHP Classes, de sua autoria. Ele tratou de tópicos muito interessantes a webmasters, uma vez que deu dicas de como manter um site e ainda ganhar dinheiro com ele.

Finda a apresentação de Manuel, foi a vez de Sulamita Garcia, que falou sobre Makefiles, um assunto avançado e interessante a desenvolvedores. Em pouco mais de trinta minutos, Sulamita deu sua aula. Curioso foi o comentário que ouvi de alguém sentado próximo a mim: "a Sulamita passou em meia hora o que meu professor explicou em duas semanas". Confesso que assisti a apresentação dela mais para conhecê-la, afinal, Sulamita é muito conceituada no ambiente computacional. Acho que muitos que estavam ali partilharam da mesma intenção. Saiba mais sobre o trabalho de Sulamita Garcia em www.linuxchix.org.br.

Palestra de Sulamita Garcia

Piter e euA palestra seguinte foi a de Piter Punk, um dos responsáveis pelo slackwarezine e desenvolvedor da ferramenta slackpkg. O cara é uma figura! O conheci no primeiro dia do evento, quando passei por seu stand. Piter deu uma verdadeira e divertida aula sobre o X. Pena que não pôde concluir, já que o tempo era curto. É extremamente recomendável baixar os slides da apresentação. Isso, teoricamente, pode ser feito pelo site de Piter, mas como ele ainda não disponibilizou (pelo menos até eu fechar esse texto), acessem o endereço e peçam por e-mail. Quem sabe ele envia? =D A palestra de Piter ainda contou com coisas estranhas e engraçadas, como a caixa de som possuída, o batuque de um grupo que vinha do pátio ao lado e minha quase queda da cadeira, fato que, felizmente, ninguém notou (acho eu).

Piter falando sobre o X

Na primeira fila da palestra de Piter Punk, vejo ninguém menos, ninguém mais que Cabelo! Não conhece o cara? Acesse esse link e você conhecerá. Cabelo é a inteligência em pessoa e é muito gente boa.

Para finalizar com chave de ouro, veio a cerimônia de encerramento. Ralf chamou ao palco as pessoas que foram mais importantes ao evento, como alguns palestrantes, Bruno Souza (o JavaMan) e um monte de pessoas cujos nomes não tenho, me desculpem. Mas a foto desse momento está aí:

Encerramento

Ralf ainda anunciou a criação do Instituto CONISLI, as datas do evento em 2006 (ocorrerá em setembro) e agradeceu a presença de todos. Para fechar o evento, um vídeo com imagens dos três dias do CONISLI foi exibido. Na recepção, os congressistas ainda retiraram um certificado de participação.

Nem tudo são flores

Pois é, nem tudo no CONISLI ocorreu como o esperado. Houve alguns problemas, mas nada que prejudicasse o evento de maneira radical. Para começar, eu (e muita gente) lamentei a ausência de Marcelo Tosatti que, por um motivo que desconheço, não compareceu ao CONISLI. Acho que seria muito bom ver sua palestra. Me parece que, de palestrantes, não foi só ele que não compareceu.

Também houve alguns probleminhas na organização, como atrasos em palestras, inexistência de um intervalo entre as apresentações para que as pessoas pudessem ir de um local ao outro e mudanças de locais de algumas palestras.

Não vi ninguém se queixando disso, mas achei que tinha palestras interessantes acontecendo ao mesmo tempo. Daí, se você escolhe uma, lamenta por não ter visto a outra.

Porém, essas coisas fazem parte de eventos do tipo e os colaboradores do CONISLI se esforçaram para que tudo acontecesse da melhor maneira possível, principalmente se considerarmos todas as dificuldades que eles tiveram. Na minha opinião, esses acontecimentos não prejudicaram o CONISLI de maneira significativa.

Conclusão

O CONISLI 2005 foi o evento mais interessante que participei. Além de conhecer pessoas que efetivamente trabalham com diversas iniciativas de software livre, foi possível ter enriquecimento técnico e cultural. Pelo decorrer desta coluna, você pôde ter uma idéia da quantidade de pessoas importantes e de projetos interessantes que passaram por lá. Isso demonstra, acima de tudo, que o software livre é uma realidade e que isso só é possível com a união, com o compartilhamento de conhecimento. Eventos como o CONISLI não possuem apenas enfoque técnico, como se imagina, mas mostram também o quão importante o software livre é para o contexto social, uma vez que, mesmo de forma indireta, prega a preocupação com o próximo, a integração comunitária, a troca de experiências, o diálogo, a boa vontade e por que não, o estabelecimento de novas amizades.

Por fim, espero que o leitor desse relato sinta-se motivado a participar do próximo CONISLI ou de outros eventos como esse. Não há coisa melhor do que interagir com pessoas que fazem acontecer e de se incluir numa comunidade que ensina a todos a todo instante, do mais experiente ao mais novato.

A todos que participaram do CONISLI, minhas cordiais saudações. Até a próxima!

Emerson Alecrim, em 07/11/2005.

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